Seu Zé e o pudim de leite condensado
MalvaGomes
Seu Zé era meu: "Pau pra toda obra"
Não tinha empreitada que ele não cumprisse. Faltava o porteiro? Mandavam seu Zé vestir a farda. Um banheiro apresentando problemas? Seu Zé organizava. Até ajudante de cozinha ele foi quando precisou. E não era só na empresa, quando problemas se apresentavam em minha casa quem era que resolvia? Seu Zé.
Mas, certo dia, veio falar comigo um sub gerente. Ele havia entrado na empresa há poucos dias. Rapaz novo, nos seus 35 anos. Bem vestido, organizado e eficiente.
Já no final de uma reunião da empresa, quando perguntei se havia algo mais a ser discutido, ele se levantou e pediu a palavra. Assenti e ele começou:
- Solicito permissão para fazer uma modificação no refeitório, essa empresa cresceu e seria conveniente que fechásemos uma parte para que a diretoria e a gerencia pudessem fazer as refeições. Não é de bom tom que fiquemos expostos.
Pensei por alguns segundos e pedi que a secretária chamasse Seu Zé
E ele entrou na sala com a roupa toda salpicada de tinta e um sorriso cativante
- Bom dia a todos. Às ordens patroa.
Sorri e perguntei:
- Seu Zé, posso lhe fazer umas perguntas?
- Pois não dona Cleusa.
- O senhor Seu Zé, caga?
- Claro! Disse timidamente
- Mija? Perguntei
- Sim senhora, disse com ar de interrogação.
- E peida também?
- Também.
- Quando o senhor morrer vai apodrecer e feder?
- Com certeza, disse com um ar resignado
- Seu Zé, se o senhor tivesse que mudar alguma coisa aqui na empresa, o que seria e o por quê
- Ah...Dona Cleusa eu pediria para a nutri mandar servir pudim de leite condensado duas vezes na semana e não só nas terças feiras.
- Seu Zé qual a razão desse pedido?
- Sabe patroa, minha mãe era lavadeira na casa de uma família rica, e eu ia com ela porque não tinha vaga na creche. E eu torcia para que a sobremesa do dia fosse pudim de leite condensado... Cada colherada era como entrar num pedacinho do céu. Minha mãe deixava o pedaço dela de lado e reclamava dizendo que não gostava e perguntava se eu podia fazer o favor de comer para não fazer desfeita. E claro que eu comia. Mas certo dia, vi minha mãe lamber o pratinho e entendi que ela abria mão de um prazer por amor a mim. Vem daí meu eterno gostar de pudim de leite condensado, ele para mim representará para sempre o amor de minha mãe.
E eu fiquei com os olhos úmidos, segurando a pulso as lágrimas. Virei-me para a secretária e pedi que avisasse a nutri para servir o tal pudim todas as terças e sextas feiras.
- Seu Zé, pedido consentido. Muito obrigada por estar sempre conosco.
Ele saiu meio confuso, mas satisfeito. E eu virei-me para o sub gerente e disse:
- Seu pedido foi negado. Aqui não fazemos acepção de pessoas porque Deus não faz. Vamos continuar comendo todos juntos e misturados, porque o que difere um ser humano do outro é o que cada um pode adquirir com o fruto do seu trabalho e seja objetos valiosos ou pudim de leite condensado, terá que deixar nessa terra, pois nada é tão valioso para seguir conosco para a próxima vida.
- Agradeço a atenção de todos e até a próxima reunião em 10 dias
Livros editados:
1 - Vamos pro mundo
2 - Eu, o magistrado!
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