Atipicidade
Atipicidade
É o que está fora do padrão, do comum, do atípico. Normalmente não entendido, a pessoa atípica acaba se isolando. Pouco se abre, muito se resguarda. O que passa em sua cabeça é um mistério. O que lhe vai no coração ninguém sabe.
Escorregadio, pouco fala de si. Não se compromete.
Assim era o Ataide, magro, franzino, amarelo, reprimido.
Não se via nele um sorriso. Quando perguntado porque tanto ostracismo, dava de ombros e não se dignava a dar palavra ao indivíduo.
Mas um dia tropeçou em Ritinha. Moça alegre e faceira. Foi no elevador do serviço.
Ficou encurralado, pelo vozerio dela. As palavras se amontoavam para adentrar-lhe os ouvidos.
O elevado enguiçou, entre o 13⁰ e o 14⁰. Ataide ficou tonto, balançava e Ritinha percebeu e recobrou os "cuidados". Perguntava o que estava havendo, emitia suposições e falando, falando logo as descartava.
E Ataide lá, se espremendo enquanto suava. Ela fez com que ele sentasse e o abraçava, dizendo que ficasse calmo, que logo o elevador iria ser consertado.
E ele não dizia palavra. Tapava os ouvidos e ela pensava que a cabeça lhe doía.
Passou a acariciá-lo nos cabelos. Baixou o tom de voz como se estivesse ninando um menino.
E ele foi se acalmando. Um pouco de cor voltou ao rosto. Os olhos ficaram fechados. A voz dela agora lhe era até agradável.
A fera estava sendo domada.
Quase duas horas depois, o elevador funcionou. Quando parou no 21⁰ saiu de lá um Ataide curado por inteiro.
Alegre, sorridente, confirmando o encontro, o primeiro de muitos que tiveram no decorrer da vida. Ritinha mudou, se apegou a Ataide. E ela já não era mais tão faladeira, gente que se ama, se entende, se tolera e procura não ultrapassar os limites. Ataide não chegou a se tornar um falastrão, mas está dentro do desejável e agora é bom ouvinte.
Engordou, criou carnes, perdeu aquela palidez mórbida, está até bonitão.
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